sábado, 23 de janeiro de 2010

Olhos de criança

Botafogo, quase 18h. Esperando o sinal abrir para atravessar, eu olho para o lado e vejo o Cristo Redentor refletindo o brilho dos raios de sol, como se estes saíssem do próprio Cristo.
Uma visão espetacular, mas que não estava sendo vista pelas pessoas próximas a mim, preocupadas demais com o próprio cotidiano para enxergar a vida como ela é.
Às vezes, é preciso parar um pouco para admirar, para agradecer.
Especialmente em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde vemos um cartão postal em cada esquina.
Os turistas que aqui chegam se encantam com os cenários de nossa cidade, enquanto que nós, cariocas, continuamos com os vidros fechados em um engarrafamento na Lagoa, indo à praia de Ipanema sem reparar na beleza do formato do Dois Irmãos, não se surpreendendo com a visão inesperada do Cristo a partir de muitos cantos da cidade.


Não podemos nos cansar do habitual, mas sim valorizar e reverenciar o lugar que moramos: a cidade mais bonita do mundo.
Devemos ser como as crianças, que ficam fascinadas com tudo, já que tudo é inédito para elas. Por que só o novo nos causa fascínio?
Uma imagem, quando vista pela décima vez, permanece tão bela quanto da primeira vez, o que muda é o nosso olhar já acostumado, já envelhecido.
Então voltemos a ter olhos de criança.
A vida é muito mais bela do que a gente costuma ver. É preciso apenas ter os olhos certos para enxergar.

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Reze pelo Haiti

Um pensamento:

Um haitiano anda nervoso pela rua destruída e repleta de corpos espalhados em meio aos escombros. Nos braços, segura firme, como se fosse um filho, a sacola de comida que conseguiu na disputa animalesca com outros haitianos pela sobrevivência. "Os seres humanos me assombram" - pensa ele.

Não tem mais nada. Dois dias antes perdera mulher e filha no tremor que devastou o já castigado país.
Por um momento, sente esperança no futuro, pois acabara de garantir mais alguns dias de vida com a comida que vai administrar cuidadosamente, longe da cobiça da multidão de desesperados.

Quase chegando em seu destino, sente que alguém pressiona um objeto cortante em suas costas.
- Passa a sacola ou te furo - diz um miserável de olhos famintos.
- Faça isso. Morrerei do mesmo jeito se te der a sacola. Me fure e acabe de uma vez com essa dor, que vai me perseguir enquanto eu viver.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Elas fazem samba também

Desconhecidas do grande público e um pouco obscuras até mesmo para aqueles que acompanham carnaval, as escolas de samba pertencentes aos grupos de acesso não possuem um espaço apropriado na mídia em geral.

O grupo de acesso A ainda possui maior apelo, já que com a drenagem feita no grupo Especial, muitas escolas conhecidas acabaram rebaixadas, como Império Serrano e Estácio de Sá, outrora campeãs do grupo principal, e as irreverentes São Clemente e Caprichosos de Pilares. Além de outras escolas de um pouco menos expressão na atualidade, mas que no passado também fizeram bonito e frequentaram o Especial algumas vezes, como Império da Tijuca, Unidos de Padre Miguel, Rocinha, Paraíso do Tuiuti e Santa Cruz. Também há escolas mais novas, como a Renascer de Jacarepaguá, que é considerada uma escola promissora, possivelmente figurando entre as grandes nos próximos anos.



Mas os demais grupos não recebem uma cobertura digna, sendo sequer mencionados em outros veículos que não pertençam às mídias especializadas.

No grupo de acesso B, hoje nomeado de Rio de Janeiro I, também há agremiações expressivas como Tradição, Lins Imperial, Jacarezinho e Arranco do Engenho de Dentro, todas com passagem no grupo Especial. Ao serem rebaixadas ao que seria a terceira divisão do carnaval, acabaram completamente abandonadas pela imprensa, e quem quiser alguma informação sobre elas fica sem qualquer alternativa.

Nos demais grupos a situação é ainda mais complicada. Os grupos Rio de Janeiro II, III e IV (os antigos grupos C, D e E) nem ao menos desfilam na Sapucaí, tendo seu carnaval resumido ao público que acompanha suas apresentações na Intendente Magalhães. E um público que só não é menos numeroso pelo fato desses desfiles serem gratuitos, já que eles ocorrem nos mesmos dias de desfiles dos outros grupos, no Sambódromo. Estão entre elas Vizinha Faladeira, já campeã do Especial; Unidos da Ponte, tradicional, com diversas passagens pelo primeiro grupo; Unidos de Lucas e Em Cima da Hora, duas das mais importantes escolas do estado, tendo a primeira apresentado “Sublime Pergaminho”, em 1968 e a segunda “Os Sertões”, em 1976, dois dos melhores e mais famosos sambas-enredo de todos os tempos.



Além dessas ainda há outras escolas menos conhecidas, mas que também possuem sua tradição, como Arrastão de Cascadura, Unidos do Cabuçu e Leão de Nova Iguaçu, ambas também com passagem pelo Especial. Fora algumas outras escolas promissoras como a surpreendente Corações Unidos do Amarelinho, que fez seu primeiro desfile em 2005 e desde então sempre figurou entre as primeiras posições, tendo em 4 anos ascendido de grupo 4 vezes.

O pouco interesse do público por essas agremiações e seus desfiles só ajuda a as afundar cada vez mais. Se ao menos tivessem direito a uma cobertura decente, com certeza chamaria a atenção daqueles que as viram brilhar no passado. Mas apenas o Especial recebe atenção, o desfile principal, o que passa na Globo. Ao acesso A resta a transmissão da CNT, ao acesso B, a transmissão da Rádio Manchete e aos demais grupos, só Deus sabe...

Em 1990 a São Clemente apresentou o enredo “E o Samba Sambou”, que previa, de forma pessimista, como seria o carnaval no futuro. Em 2010 a mesma agremiação trará o enredo “Choque de Ordem na Folia”, cujo samba possui os versos “Eu bem que te avisei que o samba um dia ia sambar...” Por que não escutaram a São Clemente no ano de sua melhor colocação? Ah, talvez porque no ano seguinte ela tenha sido rebaixada, sumido de vista, e sua mensagem caída no esquecimento.


Por André Ramos

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estamos todos conectados

Estamos todos conectados.
Porém, essa conexão precisa resultar em inclusão.
Eu recebo, quase em tempo real, as informações a respeito de uma tragédia ocorrida em qualquer lugar do planeta.
Mas será que as vítimas de tais catástrofes sabem o que ocorre no mundo? Será que elas conseguem imaginar o que existe longe de seus países? A resposta é não.

Essas pessoas, espalhadas, principalmente, pela África e Oriente Médio, não têm tempo para mais nada, a não ser para sobreviver diariamente. É uma realidade completamente diferente da que vivem americanos, franceses,...
Não possuem informações suficientes, como eu e você, que somos procurados, e achados, pela notícia. Ainda não fazem parte de uma inclusão verdadeiramente social, que as tragam para uma vida digna.

A globalização capitalista tem seu lado bom. Permitiu o avanço econômico e tecnológico, que impulsionou uma melhora significativa em índices de desenvolvimento social em muitos países. A economia se expandiu ao se tornar global, o mundo se interligou, mas não se uniu. Hoje, vivenciamos inúmeras conquistas, que permitiram o começo de uma nova realidade. Porém, não para todos.

Os países periféricos foram, como sempre, os que mais sofreram os malefícios dessa aldeia global.
A economia destes não é forte o bastante para ser capaz de acompanhar os países mais desenvolvidos, que continuam obtendo inúmeras vantagens no cenário econômico e político mundial.


A Rodada de Doha fracassou, pois, de um lado, os europeus e os norte-americanos queriam a abertura do comércio dos países em desenvolvimento aos seus produtos industrializados. De outro, os países em desenvolvimento queriam que a União Européia e os Estados Unidos diminuíssem os subsídios existentes.
Ou seja, trata-se de uma questão de protecionismo, gerado pelo medo de uma política liberalizante que possa causar prejuízos econômicos ao mercado nacional. Pois, no capitalismo globalizado, é preciso estar sempre vencendo a concorrência estrangeira.

Com o novo papel de quase protagonismo de países como o Brasil e a Índia (que integram com a Rússia e a China o BRIC), perde força o modelo centralizador de poder que vem reinando desde o fim da Guerra Fria. Percebeu-se que é necessário integrar o que antes era periférico, já que vivemos em um mundo multipolar com crescente desenvolvimento global. Isso é bom, e já vem tarde.

A ONU precisa readquirir sua credibilidade e voltar a exercer ativamente seu papel de mediação. Isso será possível quando uma guerra vetada por seus membros realmente não ocorrer, diferentemente da Guerra do Iraque, onde George W. Bush ignorou a resolução do Conselho de Segurança que ia contra a invasão norte-americana ao país de Saddam Hussein. Acontecerá também quando países como o Brasil tiverem, na ONU, a mesma importância que têm no cenário atual.

Para que um mundo melhor para todos comece a surgir, é preciso deixar um pouco de lado os interesses financeiros, que desgraçam os países mais pobres e o meio ambiente.

Não há a ajuda necessária aos países africanos por exemplo.
Ao longo dos séculos, não tiveram chances de desenvolvimento, e, agora, com a globalização, continuam não tendo. Como vão competir no mercado com potências como os Estados Unidos? Quem irá ajudá-los efetivamente?
Sim, pois ajuda humanitária somente não basta. É preciso criar condições para que esses países cresçam economicamente, que fortaleçam a democracia, que vençam a miséria, o desemprego, as doenças que tanto matam.

É preciso financiar os pilares do crescimento. Medidas paliativas não irão acabar com o problema, apenas maquiá-lo. Esses países precisam caminhar com suas próprias pernas, mas, para isso, é necessário que sejam ajudados de forma concreta.


Outra questão primordial é a do meio ambiente, que tanto vem sendo debatida, porém sem medidas correspondentes à sua importância.
Alguns não querem limitar seu crescimento econômico em prol do nosso planeta. Países em desenvolvimento não acham justo terem que cumprir taxas de redução de emissão de CO2 iguais às dos países desenvolvidos, já que não se consideram os responsáveis pela situação atual.

E realmente, historicamente falando, esses países poluíram muito menos, já que começaram a atividade industrial de forma tardia.
Não podemos comparar os danos causados pela Inglaterra, que começou a se industrializar no século XVIII, aos causados pelo Brasil, que iniciou sua industrialização no século XX.
A herança histórica é muito diferente.

Os países em desenvolvimento têm o direito de poluir (e crescer) o que os desenvolvidos poluíram ao longo da história? Se olharmos puramente pelo aspecto econômico, sim. Eles têm o direito de se desenvolver, mesmo prejudicando o meio ambiente, assim como fizeram Estados Unidos, Inglaterra,...
Mas se olharmos pelo lado humanitário, não. Só possuímos uma moradia e temos que preservá-la acima de tudo, pois nada valerá o dinheiro se não existirmos. Os erros do passado não justificam os erros do futuro.

As fronteiras geográficas não podem existir quando tratamos da preservação do nosso planeta. Não devemos ser mais americanos, franceses, brasileiros, chineses, sul-africanos, russos. Agora, devemos ser, acima de tudo, da espécie humana. Somos um só.
Estamos todos conectados.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A Presença de Noel


Não é exagero dizer que a safra de sambas de enredo para o carnaval de 2010 é a melhor da década, embora isso também não queira dizer muita coisa. Mas com certeza ficará marcada, em especial por causa de uma composição que já nasceu fazendo história. A Vila Isabel levará para a Sapucaí um samba da autoria de um de seus mais ilustres baluartes e compositores: Martinho da Vila. E logo num enredo extremamente sentimental para a agremiação. Com o título de "Noël, a Presença do Poeta da Vila", a campeã de 1988 e 2006 vai contar a trajetória de Noel Rosa, figura de extrema importância para a escola e famoso morador do bairro.
Falando do samba, já é uma obra reverenciada por todos aqueles que amam carnaval e entendem a sua importância. Não apenas pelo valor emotivo que ela carrega mas por ser totalmente diferenciada de tudo o que é visto hoje em dia. É um samba que vai tentar resgatar o que o carnaval atual não tem mais. Não é um samba feito pra ser funcional, pra fazer a arquibancada levantar com um refrão, pra explodir o coração na maior felicidade. É um samba que valoriza a melodia, que possui letra poética e bem trabalhada. E com isso busca trazer novos moldes para o gênero, que com o passar dos anos se perdeu, tornando-se mais comercial e priorizando animação à emoção.
A Vila resolveu arriscar e o desejo de todos os que ainda têm esperança no carnaval é de que dê muito certo e que seja um exemplo a ser seguido no futuro. E não poderia arriscar com enredo melhor, com compositor melhor. A escola vem com bagagem pra brigar por seu terceiro título e, mais do que isso, mudar os rumos da maior festa popular do Brasil.

VILA ISABEL 2010 - “NOËL: A PRESENÇA DO POETA DA VILA”

Autor: Martinho da Vila

SE UM DIA NA ORGIA ME CHAMASSEM
COM SAUDADES PERGUNTASSEM
POR ONDE ANDA NOËL
COM TODA MINHA FÉ RESPONDERIA
VAGA NA NOITE E NO DIA
VIVE NA TERRA E NO CÉU
SEU SAMBAS MUITO CURTI
COM A CABEÇA AO LÉU
SUA PRESENÇA SENTI
NO AR DE VILA ISABEL
COM O SEDUTOR NÃO BEBI
NEM FUI COM ELE AO BORDEL
MAS SEI QUE ESTÁ PRESENTE
COM A GENTE NESSE LAUREL

VEIO AO PLANETA COM OS AUSPÍCIOS DE UM COMETA
NAQUELE ANO DA REVOLTA DA CHIBATA
A SUA VIDA FOI DE NOTAS MUSICAIS (BIS)
SEUS LINDOS SAMBAS ANIMAVAM CARNAVAIS
BRINCAVA EM BLOCOS COM BOÊMIOS E MULATAS
SUBIA MORROS SEM PRECONCEITO SOCIAIS

FOI UM GRANDE CHORORÔ
QUANDO O GÊNIO DESCANSOU
TODO O SAMBA LAMENTOU
Ô Ô Ô
QUE ENORME DISSABOR
FOI-SE O NOSSO PROFESSOR
A LINDAURA SOLUÇOU
E A DAMA DO CABARÉ NÃO DANÇOU
FEZ A PASSAGEM PRO ESPAÇO SIDERAL
MAS ESTÁ VIVO NESTE NOSSO CARNAVAL
TAMBÉM PRESENTES CARTOLA
ARACI E OS TANGARÁS
LAMARTINE, ISMAEL E OUTROS MAIS
E A FANTASIA QUE SE USA
PRA SAMBAR COM O MENESTREL

TEM A ENERGIA DA NOSSA VILA ISABEL (BIS)


O restante da safra é bom, com os sambas de Beija-Flor e Imperatriz se destacando entre os demais. Aliás, a escola de Ramos vem com uma obra aclamada no mesmo nível da de Martinho, sendo considerado um dos melhores da agremiação e a colocando no patamar de favorita. O "Mar de Fiéis", como já é conhecido, rivaliza com a obra da Vila na opinião dos especialistas pelo posto de melhor samba do ano.
O que se sabe e se sente no mundo do samba é que a partir do próximo ano muita coisa tende a mudar... No mínimo já temos obras que com certeza não serão esquecidas na quarta-feira de cinzas.


Por André Ramos

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